Assim tem sido dois grupos do aplicativo whatsapp em Manaus, que apoia mães no pré e pós-parto. A ação hoje alcançou outros estados do Brasil.

Saber usar o mundo virtual para fazer o bem nos dias de hoje é difícil, ainda mais quando se compartilha informações pessoais, como por exemplo, família, trabalho entre outros assuntos. Mas difícil não quer dizer impossível e em Manaus dois grupos do Whatsapp são importantes para as mamães gestantes ou não.

A idealizadora deste trabalho no apoio às mães é Rachel Geber, bióloga, estudante de enfermagem, servidora pública e doula. Tudo começou após o nascimento do primeiro filho. Ela e mais quatro amigas também mães, resolveram formar grupos no facebook com o nome Aconchegar Manaus

O objetivo era levar informações sobre pré-natal, parto, pós-parto e como cuidar melhor dos bebês. "Com a união dessas amigas o trabalho basicamente tem sido a erradicação de violência obstétrica" diz. Além disso é tratado também outros assuntos como mitos, melhorias de atendimento das mulheres nos centros de saúde (público e privado) e há um envolvimento grande nas mudanças de políticas públicas e conhecimento de leis que amparam situações críticas.

Com a divulgação no facebook, foi criado o mesmo grupo no whatsapp seguindo o mesmo objetivo "Nosso trabalho de formiguinha não é só a congregação dessas mulheres, mas levar informação de qualidade". Devido o esforço e sucesso do trabalho, foi criada no Amazonas a Ong "Movimento de Humanização do Parto".

Os grupos do Whatsapp

Foto: Thailah Roberta/ Michele Pedrosa/ Ana Paula Porto

No whatsapp, o primeiro grupo, o "Aconchegar" das gestantes, começou com apenas 20 pessoas e segundo Rachel, devido o número de mães participantes não é possível calcular o número certo de membros "Hoje não tem como ter noção de quantas mulheres já foram ajudadas, é uma rotatividade muito grande, porque deixamos entrar quando estão grávidas e depois são transferidas para outro grupo das mães, pois os assuntos mudam e as ansiedades também. Suponho que desses três anos de trabalho dos dois grupos, já foram auxiliadas mais de 500 pessoas". O segundo grupo citado é dos filhos que já nasceram, "Aconchego de Mãe".

Nos grupos, todas as mães se apoiam, não há distinção de classe social, todas se ajudam "Tem desde as pessoas que tem a mínima condição financeira quanto as que já são formadas, doutoras, professoras de universidade e que tem uma condição melhor. Essas pessoas se misturam e acaba virando uma família, um grande apoio entre as mulheres". 

A solidariedade

Entre as mães existe algo muito bonito que é a "doação" diante das situações mais difíceis que acontecem, principalmente para aquelas que mais necessitam de ajuda.  "Às vezes aquelas que tem pouquíssima condição financeira e passam por dificuldades, como por exemplo as que precisam de leite por não conseguir amamentar o filho e roupa para o recém nascido. Muitas vezes elas são amparadas por todas do grupo. Elas se organizam e passam nas casas das outras e entregam o material".

As Histórias

Sempre existe uma boa história para ser contada. Raquel destacou uma delas. "Aconteceu com uma moradora do Conjunto Cidadão, pois ela era mãe de gêmeos de dois anos e estava com um recém nascido. O pai abandonou as crianças e ela ficou sozinha cuidando dos três e estava desempregada. As mulheres se organizaram para comprar roupas e alimentos e foram deixar para essa mãe".

Outra história que teve destaque foi de uma mãe do bairro Novo Israel que teve o bebê em maternidade pública. Ela aprendeu a escrever um documento chamado Plano de Parto, que consiste em a grávida escrever tudo o que ela gostaria de ter, como por exemplo o marido do lado, que o bebê não saia de perto da mãe, que ninguém empurre a barriga no momento do parto entre outros detalhes. É um documento que não tem lei que embase, mas que é feito e entregue na maternidade e todo médico e enfermeira tem que ler, ficando ciente dos desejos da mulher. Por ter feito o parto na rede publica, não havia um médico fixo para atendê-la e a cada troca de plantão em que estava no seu trabalho de parto ela observava se todos liam o documento. Resultado é que a mãe teve um parto respeitado sem sofrer violência. 

As conversas 

A principal finalidade dos grupos é falar sobre maternidade, não é permitido haver outras conversas que não estejam dentro do contexto, "Quando foge um pouco do assunto eu relembro logo que o grupo foi feito por um objetivo específico". Há algumas exceções, como por exemplo, quando elas querem compartilhar experiências de vida. As conversas são filtradas, não é permitido colocar fotos de vendas, fazer promoção de produtos, pois segundo a administradora acaba perdendo o intuito principal, que são as informações de mãe para mãe e que precisam ser compartilhadas. Por exemolo sobre o parto bem atendido, a mulher não passar por nenhum tipo de violência, o recém nascido ser bem cuidado pela mãe e que ela tenha o apoio psicológico que ela precisa. Muitas vezes é descoberto que há mãe com depressão pós-parto e quando isso acontece, ela é encaminhada para o lugar ou especialista que possa fazer o tratamento. Quando elas querem fazer tal comércio, criam outro grupo.

Nas conversas entre as mães, quando se trata de cuidados, os mais discutidos são: posição de dormir, cuidados com o umbigo (o coto umbilical), a não introdução do leite artificial para que eles sejam amamentados no peito até 6 meses e a permanência do bebê de 15 a 20 minutos no colo, depois de mamar, para que a criança não vomite, não tenha refluxo.

Encontros fora do whatsapp

Foto/ Facebok

Os encontros e conversas não acontecem somente no aplicativo, as mães também se reúnem fora, dando a oportunidade de se conhecerem. "Não existe uma agenda fixa, mas de vez em quando dependendo da necessidade nos encontramos, fazemos festas juninas, festa de carnaval para os bebês. É algo que sentimos vontade e acabamos nos conhecendo pessoalmente dando mais força ainda". Rachel explica que é importante esses contatos pois fortifica ainda mais esse laço familiar, principalmente quando ficam frente a frente com aquela ajudou no momento mais difícil no antes e depois do parto.

Por enquanto não existe um local próprio para acontecer essas reuniões com as mães, mas há o projeto para um prédio ou sede para abrigar e poder ter um ambiente confortável para os encontros e atendimentos.

Alcance no Brasil

A administradora conta que não imaginou a proporção que o whatsapp iria alcançar. Não é apenas as mães de Manaus que fazem parte do grupo, mas de outros lugares do país. "Chega informação de onde menos se espera. o Aconchegar tem mães do Brasil inteiro: São Paulo, Minas Gerais, Boa Vista, Fortaleza, Belo Horizonte entre outros lugares". 

Segundo ela, o aumento se dá pelo compartilhamento que as mães fazem com as outras e assim vai crescendo. Nunca foi imaginado por ela um alcance nacional dessa magnitude, pois o que importa é que mesmo distante, a pessoa está no grupo recebendo as melhores informações possíveis para cuidar do bebê, antes e depois do nascer.

A participação dos parceiros

Rachel Geber conta que o marido também participa dos encontros com as mães, e não é o único, os maridos das mães também fazem companhia quando se reúnem. "Eu acho que a posição do homem está sendo muito repensada historicamente, pois na época das nossas avós e mães não se via isso. O marido saia para trabalhar e a mulher ficava com os afazeres domésticos e quando chegava em casa não fazia nada".

Nas reuniões que acontecem os maridos são muito participativos, o cuidado é idêntico a das esposas, pois isso também faz parte do trabalho do grupo, a consciência masculina, o homem fazer o papel de pai assim como a mulher faz o papel de mãe. Para os pais chegou a ser feito um grupo para que acontecesse o mesmo estímulo entre eles, mas não foi para a frente.

Embora haja essa interação, o grupo de mães também já enfrentou problemas com alguns que negaram a paternidade obrigando a parceira abortar. Houve todo um trabalho com conversas, mas infelizmente a parceira cedia a vontade de namorado, pois chega ser difícil dizer algo assim para a pessoa. "É complicado você dizer isso para alguém, porque não está na pele da pessoa, não sabe a sua realidade para o sim ou para o não".

O principal objetivo

A motivação maior dos grupos no faceboo e whatsapp é fazer com que a mulher tenha um tratamento digno de mãe, tendo todos os seus direitos resguardados em leis de amparo, lutar contra a violência no parto.

O que é Violência Obstétrica?

A violência obstétrica é uma realidade e pode ocorrer na gestação, no momento do parto e do pós-parto ou no atendimento em situações de abortamento. 

Em países como a Argentina e a Venezuela, a violência obstétrica é reconhecida como um crime cometido contra as mulheres, e segundo as leis destes países, a violência obstétrica é caracterizada pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade,impactando negativamente na qualidade de vidas das mulheres.

No Brasil, segundo a Fundação Perseu Abramo, 1 em cada 4 mulheres brasileiras sofre algum tipo de violência no atendimento ao parto. A violência vai desde a restrição de direitos garantidos por lei, como o direito à presença de um acompanhante.

Um tipo de violência obstétrica muito comum na América Latina é a episiotomia indiscriminada. De acordo com evidências científicas, a episiotomia tem indicação de ser usada em cerca de10% a 15% dos casos e ela é praticada em mais de 90% dos partos hospitalares da América Latina.

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